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quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Imprudência

Os últimos anos, décadas, ou séculos, como preferir, só tem confirmado a frieza do homem com o seu próximo, ou com tudo aquilo que vive. O homem ser sociável, que necessita da companhia do outro, para se realizar como tal, parece ser criado em jaulas e sem companhia humana alguma. De modo que quanto posto em liberdade ao deparar-se com o próximo cheira, bate, morde como se o próximo fosse algo jamais visto.
Os problemas sociais, políticos, educacionais a crise religiosa que muitos vivem a excessiva racionalidade só comprovou que estamos cada vez mais despidos de todo e qualquer sentimento, sentimentos estes, que nós como seres humanos deveríamos ter. Pior do que constatar a ausência dos sentimentos de justiça, respeito ou amor, é saber que na ausência destes a injustiça e o desrespeito, governam soberanos.
Nada nos últimos dias me chamou mais a atenção que o julgamento do PM (Policial Militar) Marcos Parreira do Carmo que atirou segundo ele acidentalmente e matou o jovem Daniel Duque, 18, na entrada de uma boate na zona sul do Rio de Janeiro, com um tiro embaixo do braço. O PM afirmou disparar sem intenção de matar, sendo o tiro, em legítima defesa. O PM estava em serviço, cuidando do filho de Márcia Velasco, promotora, vítima de várias ameaças devido ao oficio que exerce.
Alguns pontos são importantes salientar para elucidação do caso. A promotora e sua família possuem proteção policial, devido às supostas ameaças que ela recebe. Sabido das ameaças como pode esta permitir a saída de seu filho para uma boate? Mesmo este possuindo proteção policial em caso de uma tentativa de assassinato, não apenas seu filho, Pedro Velasco, e o policial correriam risco de morte, mas todos aqueles que se encontravam no mesmo ambiente. A promotora afirmava no inicio do caso que não poderia privar seu filho de uma vida social. É aceitável tal argumento, entendemos que por ser jovem ele precisa divertir-se, mas muitos outros que vivem condições subumanas passam suas vidas, privados de qualquer “vida social”, nenhum jovem que vive nas favelas do Rio de Janeiro e está fora do tráfico de drogas ou estando neste, possui segurança ou condições financeiras de possuir uma “vida social”. Aliás, estes que correm tanto risco de morte ou mais que o filho da promotora, não possuem escolta policial para acompanhá-los, pior, o bairro em que eles moram a lei está sob a jurisdição de traficantes, não existindo nem escolta policial para o bairro.
Após a morte do jovem o que nos chama a atenção é a impunidade. Em julgamento realizado esta semana, o promotor Marcelo Monteiro que deveria usar da lei para trazer a condenação que fosse merecida pelo PM, saiu em defesa do mesmo. No julgamento ficou claro que ele preferiu sair em defesa do PM que servia de escolta a sua colega, obviamente não pelo PM e sim porque falou mais alto a camaradagem entre os promotores do que a justiça.
É certo que muitos pais não conhecem seus filhos, e que o jovem ali morto poderia ter começado a confusão. Todavia não houve imprudência maior do que a promotora permitir que seu filho jurado de morte, assim como toda sua família, se deslocasse para uma boate na noite carioca com escolta policial, pura falta de bom senso. Hoje o PM despreparado está livre para matar ou ferir todo aquele que possa parecer perigoso a integridade de um jovem que deveria restringir sua “vida social” a viagens fora do Rio de Janeiro e aos estudos. Ele não tem culpa do trabalho que a mãe exerce, mas muitos outros que na maioria das vezes até o direito de estudar é retirado não têm culpa da situação econômica que vivem os pais. Faltou a mãe Márcia Velasco pensar um pouco como promotora.

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